Decisões do último informativo do STJ - Discussão sobre o uso de algemas

quarta-feira, 30 de agosto de 2006 Deixe um comentário


No informativo do STF, de número 437, discutiu-se a necessidade ou não do uso de algemas durante a condução do acusado ao STJ. Salientou-se que, apesar de a Lei de Execução Penal (art. 199) determinar que o emprego de algema seja regulamentado por decreto federal, este ainda não fora disciplinado. Ante o quadro fático, o STF entendeu que o uso de algemas deve ocorrer em observância aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, devendo ocorrer quando configurada uma das seguintes hipóteses abaixo:

"a) para impedir, prevenir ou dificultar a fuga ou reação indevida do preso, desde que haja fundada suspeita ou justificado receio de que tanto venha a ocorrer; b) para evitar agressão do preso contra os próprios policiais, contra terceiros ou contra si mesmo".

Vejamos o interior teor:

Uso de Algemas e Constrangimento Ilegal - 1

A Turma deferiu habeas corpus em que conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia denunciado, com terceiros, com base em investigações procedidas na denominada "Operação Dominó" pleiteava fosse a ele garantido o direito de não ser algemado e nem exposto à exibição para as câmeras da imprensa. Na espécie, a Min. Cármen Lúcia, relatora, concedera liminarmente salvo conduto ao paciente para que não fosse algemado em sua condução ao STJ, local onde processada a ação penal contra ele instaurada. Tendo em conta que o paciente encontra-se preso e que o seu pedido estende-se à obtenção da ordem para que as autoridades policiais não voltem a utilizar algemas em qualquer outro procedimento, considerou-se inexistente, nessa parte, o prejuízo da impetração. Em seguida, esclareceu-se que a questão posta nos autos não diz respeito à prisão do paciente, mas cinge-se à discussão sobre o uso de algemas a que fora submetido, o que configuraria, segundo a defesa, constrangimento ilegal, porquanto sua conduta em face da prisão fora passiva e o cargo por ele ocupado confere-lhe status similar ao dos membros da magistratura, o qual, nos termos do Código Penal Militar, não se sujeita ao uso daquele instrumento. Asseverou-se que as garantias e demais prerrogativas previstas na CF (art. 73, § 3º) concernentes aos Ministros do Tribunal de Contas da União referem-se ao estatuto constitucional, enquanto os preceitos repetidos, por simetria, na Constituição do referido Estado-membro, à condição legal. Ademais, salientou-se a natureza especial da norma processual penal militar. Afirmou-se, no ponto, que somente por analogia seria permitido o aproveitamento desta para a sua aplicação ao presente caso.
HC 89429/RO, rel. Min. Cármen Lúcia, 22.8.2006. (HC-89429)

Uso de Algemas e Constrangimento Ilegal - 2

No tocante à necessidade ou não do uso de algemas, aduziu-se que esta matéria não é tratada, específica e expressamente, nos códigos Penal e de Processo Penal vigentes. Entretanto, salientou-se que a Lei de Execução Penal (art. 199) determina que o emprego de algema seja regulamentado por decreto federal, o que ainda não ocorreu. Afirmou-se que, não obstante a omissão legislativa, a utilização de algemas não pode ser arbitrária, uma vez que a forma juridicamente válida do seu uso pode ser inferida a partir da interpretação dos princípios jurídicos vigentes, especialmente o princípio da proporcionalidade e o da razoabilidade. Citaram-se, ainda, algumas normas que sinalizam hipóteses em que aquela poderá ser usada (CPP, artigos 284 e 292; CF, art. 5º, incisos III, parte final e X; as regras jurídicas que tratam de prisioneiros adotadas pela ONU , N. 33; o Pacto de San José da Costa Rica, art. 5º, 2). Entendeu-se, pois, que a prisão não é espetáculo e que o uso legítimo de algemas não é arbitrário, sendo de natureza excepcional e que deve ser adotado nos casos e com as finalidades seguintes: a) para impedir, prevenir ou dificultar a fuga ou reação indevida do preso, desde que haja fundada suspeita ou justificado receio de que tanto venha a ocorrer; b) para evitar agressão do preso contra os próprios policiais, contra terceiros ou contra si mesmo. Concluiu-se que, no caso, não haveria motivo para a utilização de algemas, já que o paciente não demonstrara reação violenta ou inaceitação das providências policiais. Ordem concedida para determinar às autoridades tidas por coatoras que se abstenham de fazer uso de algemas no paciente, a não ser em caso de reação violenta que venha a ser por ele adotada e que coloque em risco a sua segurança ou a de terceiros, e que, em qualquer situação, deverá ser imediata e motivadamente comunicado ao STF.
HC 89429/RO, rel. Min. Cármen Lúcia, 22.8.2006. (HC-89429)




5 comentários »

  • Fernando disse:  

    Parabéns cara, pelo Blog!
    adorei os artigos

    Abraços,
    Fernando

  • Victor disse:  

    Na verdade, o uso da algema sempre fora uma questão polêmica. Porém o que a maioria dos operadores do direito defendiam, era o que hoje (atualmente) o STF veio a expressar através de tal HC.

    O que falta mesmo agora, é tornar o uso de tal decisão plena.

    Victor.

  • Anônimo disse:  

    Será que os princípios da proporcionalidade e razoabilidade também serão aplicados na prisão de gente pobre?

  • Anônimo disse:  

    O que a PF quer algemando todos em qualquer circunstância são três coisas: Mostrar ao preso que ele, também, apesar da posição social, pode ser algemado,e preso! Causar terror nos criminosos que fazem parte da "elite" e demonstrar ao povo que essa polícia prende rico.

  • Anônimo disse:  

    Muito interessante o artigo.
    Parabéns.
    Outra questão que gera muita discussão é a busca pessoal, o que seria "a fundada suspeita" se seria possível o quetionamento, ao agente policial o por que da revista.
    Prometo enviar algo, mas tendo algum material poste.
    Obs.: apenas nao me identifico pois ainda nao tive tempo de me cadastrar.

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